Tecnologia ajuda a entender migrações humanas e a preservar idiomas em extinção

Paul Heggarty, pesquisador da Sociedade Max Planck
Tecnologia ajuda a entender migrações humanas e a preservar idiomas em extinção

O grupo do pesquisador Paul Heggarty, da Sociedade Max Planck para a Promoção da Ciência (MPG), conseguiu, por meio de tecnologias, unir dados genéticos e de linguística para atingir uma estimativa mais precisa da expansão dos idiomas indo-europeus pela Europa. Esse feito deu-se cruzando, por meio de computação, amostras de DNA de populações antigas a dados dos idiomas atuais. O resultado foi uma nova estimativa para o começo da expansão das línguas indo-europeias, estimado agora em 8,2 mil anos atrás. 

“Há duas principais hipóteses, que propõem linhas do tempo diferentes para a expansão dos primeiros falantes da língua que deu origem aos idiomas indo-europeus. Uma de que teria ocorrido cerca de 6 mil anos atrás, outra de 8,5 mil ou mais. Nossa análise mostrou que, em torno de 8,2 mil anos, é a melhor estimativa possível agora, ou seja  6 mil anos atrás seria um pouco recente demais”, disse Heggarty em palestra no dia 28 de novembro no Frontiers of Science Symposium FAPESP Max Planck, organizado pela Sociedade Max Planck (MPG) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de São Paulo (Fapesp).

Apesar do uso da computação para cruzar extensos bancos de dados, o pesquisador enfatizou a importância do trabalho que precisa ser feito para obter os melhores dados linguísticos, para só então poder cruzá-los com dados genéticos que comparam o perfil dos genes das populações atuais com o das pré-históricas. 

“A análise computacional se baseia primeiramente em linguística, treinar pessoas trabalhando nessas línguas para entendê-las junto com os dados sobre elas. E então é preciso converter esses dados em um formato que a análise computacional possa usar. Você não pode apenas começar com os computadores, tem que começar com a linguística”, disse Heggarty à Agência Fapesp.

Heggarty explicou que para estudar a expansão de uma cultura por meio das línguas faladas atualmente é preciso reconstruir uma árvore de descendência dessas e trabalhar com as estruturas que mostram quais são mais próximas uma da outra. 

“Pode-se ver, nesse cruzamento, que as pessoas de um lugar migraram para outro, porque elas falam línguas aparentadas mesmo vivendo a 2 mil quilômetros de distância. E pelo DNA antigo, vê-se um perfil genético particular que se move de uma parte do mundo para outra”, disse o pesquisador.

No entanto, o DNA não explica tudo. Basta pensar que as línguas são espalhadas por meio da dominação cultural, não necessariamente genética. “Falantes de línguas indo-europeias têm perfis genéticos bem diferentes. No mundo moderno há vários casos em que línguas se espalham e são aprendidas. Uma das línguas mais faladas hoje na Índia, por exemplo, é o inglês. E geneticamente esse povo não é europeu, mas eles falam a língua”, disse Heggarty.

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