Mesa-redonda “Ética na Ciência”

Data: 
17/07/2017 
Local: 
Belo Horizonte (MG) 
Organizador: 
DWIH-SP e SBPC 

A mesa-redonda “Ética na Ciência”, que será realizada durante a 69ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Belo Horizonte (MG), irá debater os mecanismos de controle para evitar fraudes, plágios e manipulação de resultados de pesquisa.

Com moderação da presidente da SBPC, Helena Nader, a mesa-redonda terá como palestrantes: o diretor do Centro de Gestão, Tecnologia e Sociedade da Friedrich-Alexander-Universität (FAU), de Erlangen-Nuremberg, Jens Ried; o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Carlos Henrique de Brito Cruz; e a professora Sonia Maria Ramos de Vasconcelos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A mesa-redonda acontece no dia 17, às 15h30, no auditório da Reitoria da UFMG (Av. Pres. Antônio Carlos, 6627 - Pampulha, Belo Horizonte – MG). Trata-se de uma das atividades do Centro Alemão de Ciência e Inovação - São Paulo (DWIH-SP) na reunião da SBPC.

Veja abaixo o resumo de cada palestra:

Jens Ried, da Friedrich-Alexander-Universität, Erlangen-Nürnberg

Existe um consenso amplo entre políticos, profissionais e filósofos sobre o ethos da ciência moderna: ciência é gerar conhecimento confiável baseado em pesquisa imparcial, metodologias adequadas, com abertura para críticas. No entanto, com os vários casos de fraude revelados nos últimos anos esse assunto tornou-se – e ainda é – uma questão pública. São casos que levantaram dúvidas sobre o quanto pode-se confiar no ethos da ciência e o quanto os cientistas o levam a sério. Como resultado e em resposta aos casos notórios de fraude, a comunidade científica desenvolveu estratégias para prevenir e combater um amplo espectro de má condutas, de fraudes completas à manipulação de dados, plágio ou deficiências óbvias na metodologia. Apesar desses esforços, as mesmas fraquezas estruturais no sistema de pesquisa, que promoveram os casos de fraude e má conduta no passado, ainda permanecem. A palestra irá apontar esses fatores e defender uma gestão política e pública para assegurar a liberdade científica e, ao mesmo tempo, garantir a confiança na pesquisa e nos cientistas.

Carlos Henrique de Brito Cruz, da FAPESP

O tema Ética na Ciência pode e deve ser compreendido de muitas formas. Pode se referir, por exemplo, ao comportamento do cientista com relação ao impacto de seus resultados sobre a sociedade. Pode se referir à forma como o cientista interage com a sociedade em relação ao uso de espécimes humanos, animais, ou a efeitos sobre o meio ambiente. Nesta sessão vamos tratar dos aspectos relativos à forma como o cientista pratica a ciência, tratando da concepção de um projeto, sua realização e a comunicação dos resultados. Por isso a FAPESP tem se referido a este tema como “Boas Práticas em Pesquisa”. No mundo todo têm se tornado mais visíveis em anos recentes casos de fraude, plágio e fabricação de resultados que causam danos profundos à atividade científica, em si, e à legitimidade da ciência perante o público. Com isso em mente, a FAPESP elaborou em 2011 um Código de Boas Práticas em Pesquisa (www.fapesp.br/boaspraticas/) que busca reforçar, na comunidade científica paulista e nas instituições de pesquisa no estado, uma cultura sólida de integridade ética da pesquisa mediante um conjunto de estratégias assentado sobre três pilares interdependentes: 1) educação; 2) prevenção; 3) investigação e sanção, justas e rigorosas.

Sonia Maria Ramos de Vasconcelos, da UFRJ

Há quase duas décadas, John Zimman fez uma das contribuições mais marcantes sobre as interfaces entre a ciência e a ética, em sua publicação “Why must scientists become more ethically sensitive than they used to be?” (Science, 1998). Zimman argumenta que o aumento dessa sensibilidade ética dos cientistas não seria apenas uma consequência natural de uma “crescente influência da ciência sobre a sociedade, magnificada por um frenesi midiático”. O autor indica que essa maior sensibilidade estaria associada à transformação da ciência, ao longo das últimas décadas, em um outro tipo de instituição social, a ciência “pós-acadêmica”. De fato, entre as décadas de 1950 e 1990, as várias concepções sobre ciência tiveram, por exemplo, importante influência no delineamento de políticas de ciência e tecnologia em vários países. Nessa dinâmica de produção de novos conhecimentos e produtos, alguns dos desafios éticos se associavam aos novos papéis assumidos pelos cientistas no campo social e econômico. Às questões éticas permeando as transformações da ciência acadêmica para a pós-acadêmica, apontadas por Zimman, iam se somando outras incluindo as associadas às enormes contribuições da “ciência de fronteira”. Nesse campo, preocupações sobre como avançar com precaução, considerando riscos e benefícios para pessoas, comunidades e ambiente, também aproximaram – e aproximam – naturalmente os espaços de diálogo entre a ética e a ciência. Esse diálogo entre os dois campos se estende ao considerarmos aspectos sobre o empreendimento científico relacionados à condução e comunicação responsável da ciência e à sua autorregulação. Nesse cenário, a responsabilização institucional parece ser um dos pilares que mais podem fortalecer a ideia de uma ciência ética e confiável. Essa ideia de eticidade e confiabilidade hoje se atrela a medidas mais objetivas de fomento à transparência e a um escrutínio público maior sobre os processos de condução, revisão e avaliação da ciência “pós-acadêmica”. A leitura contemporânea sobre a ética na ciência agrega, portanto, de forma mais marcada, elementos éticos que impactam a reprodutibilidade de resultados, a cultura de comunicação científica e de compartilhamento de dados de pesquisa, dentre outros. A palestra propõe uma abordagem contemporânea sobre o tema, com foco sobre alguns dos desafios institucionais postos no cenário brasileiro.

 

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